Com um quarto da população de Santos acima dos 60 anos, especialista afirma que edifícios sem elevador podem transformar localização privilegiada em isolamento e vê no modelo japonês uma referência para manter idosos e trabalhadores vivendo na cidade.
O futuro dos milhares de pequenos edifícios construídos nas décadas passadas pode estar diretamente ligado ao envelhecimento da população da Baixada Santista. Para o arquiteto Alessandro Lopes, a questão vai muito além da preservação do patrimônio construído: trata-se de garantir que as pessoas consigam permanecer na cidade ao longo de toda a vida.
Questionado se hoje um trabalhador consegue morar, formar uma família, envelhecer e continuar pertencendo ao lugar onde vive, Lopes responde que isso nem sempre acontece. Segundo ele, a experiência japonesa demonstra que é possível conciliar moradia, cuidado e permanência na comunidade, desde que o planejamento urbano acompanhe a transformação demográfica.
Segundo o Censo 2022, Santos possuía 106.033 moradores com 60 anos ou mais, equivalentes a 25,33% dos 418.608 habitantes apontados naquele ano. Os números mostram a dimensão desse desafio. Segundo análise da Fundação Seade baseada no Censo 2022, pessoas com 60 anos ou mais representavam 17,2% da população paulista.
Na Baixada Santista, o envelhecimento é ainda mais evidente. Santos possui 429.547 habitantes, dos quais 106.033 têm 60 anos ou mais, representando 24,68% da população. Em Praia Grande, são 62.850 idosos (17,05%) entre 368.539 moradores. Já Guarujá registra 44.927 pessoas nessa faixa etária, correspondentes a 15,23% da população estimada em 294.871 habitantes.
Segundo Lopes, o envelhecimento da população se soma a outro desafio: o custo crescente de permanecer na cidade. Dados do Plano Municipal de Habitação, baseados no Cadastro Único de 2025, identificaram 9.206 famílias com renda de até três salários mínimos, comprometendo mais de 30% da renda com aluguel. Desse conjunto, 81,52% declararam renda familiar de até um salário mínimo.
Ele observa que cada município enfrenta uma realidade distinta. Santos concentra infraestrutura urbana consolidada e uma população mais envelhecida; Praia Grande continua absorvendo forte expansão residencial; Guarujá reúne atividade portuária, turismo e desafios habitacionais; enquanto o Estado de São Paulo precisará financiar políticas públicas voltadas ao envelhecimento em larga escala.
Santos possui 67,1% de suas moradias em apartamentos — a maior proporção do Brasil. Para o arquiteto, essa característica faz da cidade um laboratório natural para uma nova etapa da verticalização urbana.
Segundo ele, o desafio já não é apenas construir novos edifícios, mas adaptar os existentes para que continuem atendendo às necessidades da população ao longo das próximas décadas.
Lopes lembra que Santos possui 3.343 pequenos edifícios, em sua maioria com dois a quatro pavimentos e muitos deles sem elevador.
“Esse conjunto representa patrimônio, memória e uma importante reserva habitacional. Em uma cidade onde mais de um quarto da população tem 60 anos ou mais, uma escadaria pode transformar um endereço valorizado em um processo gradual de confinamento.”
Na avaliação do arquiteto, porém, a adaptação desses prédios precisa ser economicamente viável. A instalação de elevadores, por exemplo, não pode resultar em condomínios inviáveis para seus próprios moradores. “Eliminar a barreira física criando uma barreira financeira significa apenas substituir um problema por outro”, resume. Ele ressalta que prédios com 15 anos, por exemplo, já não atendem às mudanças tecnologicas como o recebimento de entregas por aplicativos e o carregamento dos carros eletricos. “Hoje, os elevadores de serviços precisam ser pensados como elevadores hospitalares. Com a verticalização e envelhecimeto da população, o ideal é que sejam maiores para auxiliar o resgate via maca. Isso acontece também com edificações com 40, 50 anos. Quando existe necessidade de um resgate, o paciente tem que ser removido por maca portátil, pela escada ou sentada numa cadeira”.
O crescimento da população idosa tende a ampliar a demanda por profissionais de saúde, assistência, alimentação, mobilidade, manutenção e cuidados.
Permanecer na comunidadePara Lopes, a discussão não envolve apenas pessoas idosas, mas toda a estrutura econômica da cidade. O crescimento dessa população tende a ampliar a demanda por profissionais de saúde, assistência, alimentação, mobilidade, manutenção e cuidados.
Na prática, ele defende políticas que permitam ao morador permanecer em sua comunidade, oferecendo diferentes opções habitacionais conforme cada fase da vida. Entre elas estão apartamentos adaptáveis, unidades menores no mesmo bairro, moradias assistidas sem características institucionais, centros-dia, teleassistência, atendimento de saúde de proximidade, lavanderias e cozinhas compartilhadas, além de habitações destinadas tanto a jovens e famílias quanto a trabalhadores do setor de cuidados.
Segundo o arquiteto, o Japão oferece um dos exemplos mais consistentes de integração entre moradia e envelhecimento. O país organiza uma rede comunitária que reúne habitação, saúde, assistência social, prevenção e cuidados de longa duração, permitindo que as pessoas permaneçam em seus bairros mesmo quando passam a necessitar de apoio. “A principal lição não é copiar um modelo japonês, mas compreender que moradia e cuidado precisam funcionar de forma integrada. Uma cidade preparada para envelhecer também precisa garantir moradia para quem cuida dela.”
Para Lopes, essa mudança representa uma nova etapa da evolução urbana. “A proposta é passar da verticalização da forma para a verticalização das oportunidades. O edifício deixa de ser apenas um produto imobiliário e passa a funcionar como uma infraestrutura para a vida.”
Com quase 30% da população acima dos 65 anos, o Japão precisou adaptar suas cidades para responder ao envelhecimento acelerado. Em vez de concentrar os idosos em instituições de longa permanência, o país passou a investir em um modelo conhecido como Sistema Comunitário Integrado de Cuidados, que reúne habitação, saúde, assistência social e serviços de apoio em uma mesma rede territorial.
A lógica é simples: permitir que as pessoas permaneçam o maior tempo possível em suas próprias casas ou no bairro onde construíram sua história, preservando vínculos familiares, comunitários e de vizinhança.
Para isso, os municípios japoneses estimulam a oferta de apartamentos adaptados, moradias assistidas de pequeno porte, atendimento domiciliar, teleassistência, centros-dia, reabilitação física, alimentação, lavanderias comunitárias e comércio de proximidade. Os serviços são organizados para que o deslocamento seja reduzido e o cuidado aconteça perto de casa.
Segundo o arquiteto Alessandro Lopes, a principal lição japonesa não está em copiar edifícios ou modelos arquitetônicos, mas em compreender que habitação e cuidado precisam ser planejados de forma integrada.
“O objetivo é permitir que as pessoas continuem vivendo em territórios familiares, recebendo apoio conforme suas necessidades. Uma cidade preparada para envelhecer também precisa garantir moradia para quem cuida dela.”
Para o especialista, cidades como Santos, que já possuem uma das populações mais envelhecidas do Brasil e um grande estoque de pequenos edifícios antigos, podem adaptar esse conceito à realidade local, requalificando imóveis existentes e criando bairros mais inclusivos para todas as gerações.
– Moradia adaptada para diferentes fases da vida;
– Atendimento de saúde próximo da residência;
– Cuidados domiciliares e teleassistência;
– Centros-dia e serviços de convivência;
– Comércio e serviços acessíveis a pé;
– Apoio aos cuidadores e profissionais da saúde;
– Integração entre habitação, mobilidade e assistência social
Fonte: https://santaportal.com.br/