Durante décadas, os muros dos hospitais psiquiátricos brasileiros isolaram vidas, histórias e vontades, reduzindo pessoas a prontuários e diagnósticos. No final dos anos 1980, a Casa de Saúde Anchieta, em Santos, ganhou o apelido estarrecedor de “Casa dos Horrores”: superlotada com 565 pacientes em um espaço projetado para apenas 280, a instituição acumulava denúncias de celas-fortes, higiene degradante, sedação química indiscriminada e sessões de eletrochoque usadas como instrumentos de punição.
O ponto de virada começou em 1989, quando o então secretário municipal de Saúde, o médico sanitarista David Capistrano (1948–2000), liderou uma intervenção pública inédita motivada por repetidos maus-tratos e mortes evitáveis. Em meio a esse processo de desmontagem do modelo asilar, o arte-educador santista Renato Di Renzo visitou o Anchieta a convite de um amigo e deu início a uma das transformações socioculturais mais profundas da história da psiquiatria brasileira.
A aproximação com os internos começou com oficinas de expressão gráfica e a criação do jornal Tantão Urgente, montado coletivamente a partir de desenhos e colagens feitas nas paredes do pátio. A evolução natural dessa linguagem visual foi o som.
Com recursos improvisados, um microfone doméstico, um tripé de madeira, 32 alto-falantes espalhados pelos pátios e cascas de ovos coladas nas paredes para isolamento acústico, nascia a estrutura original da Rádio Tam Tam dentro do próprio hospital. Uma lâmpada vermelha na porta indicava quando o estúdio estava ao vivo, e a vinheta de abertura rompia qualquer padrão formal: ruídos de turbinas, explosões teatrais e gritos antecediam a frase clássica de abertura, dita pelo locutor e interno Carlos Alberto (sob o codinome Marcelo Bruno).
“Está no ar a Rádio Tamtam, um programa do tamanho da sua loucura.”
A programação funcionava durante todo o dia. Os participantes, carinhosamente apelidados de “loucutores”, usavam nomes artísticos para proteger a privacidade e assumiam o comando integral das bancadas.
A dimensão da rádio ultrapassou os limites do hospital no dia 5 de novembro de 1990, quando o programa estreou na grade da Rádio Universal AM. Pela primeira vez na história da radiodifusão latino-americana, pessoas diagnosticadas com sofrimento psíquico profundo comandavam transmissões abertas para toda a Baixada Santista.
A resposta da audiência foi imediata: o estúdio chegava a registrar cerca de 40 telefonemas ao vivo a cada meia hora de programa. As pautas transitavam com liberdade por todas as áreas.
O fenômeno atraiu correspondentes de veículos de imprensa internacionais, como a britânica BBC e jornais dos Estados Unidos, além de pensadores da Reforma Psiquiátrica europeia, a exemplo dos psiquiatras italianos Franco Rotelli e do filósofo francês Félix Guattari, que desembarcaram em Santos para acompanhar a experiência in loco.
“Quando você entrega o microfone, você devolve o poder e a comunicação para quem a sociedade tratava como lixo. Isso rompe o silenciamento e devolve a essas pessoas um lugar de dignidade e status civil”, destaca Renato Di Renzo.
Com as transformações no mercado radiofônico comercial ao longo da década de 1990, o programa encerrou sua fase no dial AM. A semente plantada pela experiência, contudo, desdobrou-se em uma organização não governamental estruturada em conjunto com a psicóloga e bailarina Cláudia Alonso.
Para garantir que os usuários e suas famílias não ficassem desamparados após o fechamento definitivo dos manicômios na cidade, a ONG passou anos ocupando sedes temporárias até fincar raízes no Teatro de Arena Rosinha Mastrângelo, no Centro de Cultura Patrícia Galvão (Vila Mathias).
Hoje, o Projeto TamTam oferece oficinas contínuas de teatro, dança inclusiva e expressão artística para jovens e adultos com deficiência intelectual e transtornos mentais, além de promover rodas de convivência e geração de renda com mães artesãs.
“O desejo é maior que a dor.”
Fonte: https://santaportal.com.br/1077-fm/loucura-que-ganhou-voz-a-revolucao-da-radio-tam-tam/