Periodicamente, a força das ressacas e a dinâmica costeira rebaixam a faixa de areia na praia do Embaré, próximo ao Canal 5, trazendo à tona estruturas de madeira escura e vigas centenárias na orla de Santos. Esse sítio arqueológico, que atraiu a atenção da cidade pela primeira vez em agosto de 2017, continua a fascinar e despertar a curiosidade de quem passeia pela praia.
A principal teoria sobre a origem da carcaça remonta a fevereiro de 1895. Naquele período, o veleiro mercante britânico Kestrel, de três mastros, estava fundeado na costa de Santos, aguardando para retornar à Europa após operações comerciais. Durante um forte temporal, a corrente da âncora se rompeu, e os ventos intensos empurraram a embarcação desgovernada rumo à arrebentação da praia, que na época era uma faixa contínua conhecida como praia do Boqueirão. Três tripulantes estavam a bordo e conseguiram se salvar, mas os esforços de resgate falharam, e o casco acabou sendo abandonado, sendo gradualmente coberto pela areia ao longo dos anos.
Embora o Iphan tenha registrado o local como sítio arqueológico “Veleiro Kestrel” em 2017, a confirmação definitiva da identidade da embarcação ainda está pendente.
“O Kestrel é uma hipótese histórica bastante forte, mas ainda não uma identificação arqueológica comprovada”, esclarece o historiador Sérgio Willians.
Além da documentação da época, uma das pistas mais intrigantes foi descoberta por Willians em 2020: uma pintura do artista Benedicto Calixto que retrata um navio encalhado na costa de Santos. Ao comparar a perspectiva topográfica e os acidentes geográficos retratados por Calixto com a conformação da Baía de Santos, surgiu a suspeita de que o artista tenha capturado em sua tela o naufrágio do Kestrel.
No entanto, existe uma linha alternativa sustentada pelo Museu Marítimo de Santos, que defende que as peças podem pertencer à barca alemã Nanny, que também encalhou e afundou na mesma área da orla em maio de 1890.
O desfecho do mistério está se aproximando. Um convênio técnico de R$ 150 mil, firmado entre o Iphan e o Laboratório de Arqueologia Subaquática da Universidade Federal de Sergipe (UFS), está em andamento:
A conclusão do relatório pericial é esperada até novembro de 2026, quando será formalmente definida a origem dos destroços.
Uma dúvida comum entre a população diz respeito ao motivo pelo qual as autoridades não realizam a remoção e transferência das vigas para um museu fechado. A resposta se relaciona ao equilíbrio bioquímico necessário para a conservação arqueológica.
“A madeira permaneceu submersa e saturada de água por mais de 130 anos. A areia e o mar atuam como um escudo protetor contra o oxigênio. Se as peças forem removidas abruptamente, o contato direto com o sol, o calor e a perda de umidade causariam rachaduras severas, deformações e rápida desintegração da madeira histórica”, afirma Sérgio Willians.
A remoção segura exigiria um canteiro arqueológico de grande porte, com maquinário pesado, banhos químicos de consolidação que durariam anos e uma estrutura climatizada de alto custo.
Após intervenções do Ministério Público Federal e laudos do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP (MAE-USP), a Justiça determinou a preservação in situ (no local). O plano prevê a sinalização para a segurança dos banhistas, a finalização dos estudos técnicos e uma futura musealização ao ar livre pela Prefeitura de Santos, permitindo que a história seja contada exatamente onde ocorreu.
Fonte: https://santaportal.com.br/baixada/navio-historico-que-naufragou-no-canal-5-em-santos/