Por 16 anos, o Bayside Kings fez o caminho mais difícil. Tocou em casas pequenas, enfrentou quilômetros de estrada, dividiu o tempo entre empregos e ensaios e construiu uma trajetória baseada no do it yourself (faça você mesmo, na tradução literal), marca da cena hardcore. Agora, a banda formada em Santos, no litoral de São Paulo, chega ao maior festival de música do Brasil sem precisar mudar quem sempre foi.

No dia 6 de setembro, Milton Aguiar (voz), Teteu (guitarra), Manolo (baixo) e David Gonzalez (bateria) sobem ao Palco Supernova do Rock in Rio carregando mais do que o nome da banda. Levam consigo uma história construída na Baixada Santista e representam uma cena que há décadas influencia o rock nacional.

No Dia Mundial do Rock, celebrado neste 13 de julho, a estreia do grupo no festival ganha um significado ainda maior: mostra que uma banda nascida no litoral paulista pode alcançar os maiores palcos do país mantendo a identidade que a formou.

“Qualquer artista que faça música no Brasil gostaria de ter a oportunidade de subir num palco com a representatividade e a visibilidade do Rock in Rio. Para a gente, isso não muda quem o Bayside Kings é, mas amplia o alcance do que fazemos”, resume Aguiar.

O momento também marca uma nova fase da carreira. Apenas uma semana antes do festival, o grupo lança ATLAS, primeiro álbum completo pela gravadora Deck, transformando setembro em um dos períodos mais importantes desde a criação da banda.

“Existe toda uma construção até chegar nesse palco. Acreditamos que esse vai ser um daqueles momentos que marcam uma fase inteira da banda”.

A confirmação da participação precisou ser mantida em segredo por alguns dias. Aguiar foi o primeiro integrante a receber a notícia e conta que esconder a conquista foi uma das tarefas mais difíceis da carreira. Mas a emoção vai muito além do anúncio.

O vocalista lembra que, em 2001, assistiu ao Rock in Rio 3 pela televisão, em frente à vitrine de uma loja, porque não tinha condições de ir ao festival. Na época, bandas como Deftones, Silverchair e Papa Roach despertaram um sonho que parecia distante.

Mais de duas décadas depois, ele será uma das atrações. “É uma forma de olhar para trás e entender que cada escolha e cada dificuldade fizeram sentido”.

A preparação, segundo ele, começou no dia seguinte à confirmação. O objetivo é entregar o show mais intenso da história do Bayside Kings, tanto para quem acompanha a banda desde o início quanto para quem terá o primeiro contato com o hardcore santista.

Embora o Rock in Rio represente um novo patamar, Aguiar faz questão de lembrar onde tudo começou.

“O Bayside Kings foi totalmente forjado na Baixada Santista, principalmente em Santos”.

Segundo ele, crescer em uma cidade portuária, acostumada a receber influências culturais de diferentes partes do mundo, ajudou a moldar a identidade musical da banda.

Garage Fuzz, Charlie Brown Jr., Vulcano e 100 Ilusões aparecem entre as principais referências do grupo. “Hoje, além de referências, muitas dessas pessoas se tornaram amigos e parceiros de estrada”.

Para Aguiar, o Bayside Kings faz parte de uma história que começou muito antes da banda existir.

“Ver que hoje o Bayside Kings também inspira outras bandas é algo muito especial, mas, ao mesmo tempo, ainda parece muito novo pra gente. Ainda me considero em constante aprendizado, buscando novas formas de criar, compor e me expressar. Sabemos que não fomos a primeira banda da Baixada e também não vamos ser a última. Fazemos parte de uma história que continua sendo escrita”.

O vocalista acredita que o crescimento do Bayside Kings também ajuda a abrir espaço para outras bandas da região.

Ele cita nomes consolidados como Garage Fuzz e Zimbra, além de grupos mais recentes, como Distant Shores, Capote e Seaport, como exemplos de que a cena da Baixada continua produzindo artistas relevantes.

“Acredito muito em continuidade e renovação caminhando juntas. Cada geração abre espaço para a próxima”. Ao mesmo tempo, Aguiar reconhece que ainda existem desafios.

Na avaliação dele, faltam mais casas voltadas para música autoral e uma maior integração entre as bandas independentes da região.

“Lugares como o Mucha Breja, o Rusbé, Central do Brasil e o Arena cumprem um papel muito importante, cada um dentro da sua proposta, mas seria muito bom ver mais espaços abrindo as portas para artistas independentes”.

Iniciativas como o Santos Criativa Rock e o Santos Tattoo Festival, segundo ele, mostram que esse caminho é possível, mas ainda há espaço para ampliar incentivos culturais e fortalecer o circuito local.

Enquanto muitos artistas suavizam o discurso para alcançar públicos maiores, o Bayside Kings escolheu outro caminho A banda acredita que foi justamente a fidelidade às próprias ideias que abriu as portas para festivais como o Rock in Rio.

“A gente continua fazendo exatamente o mesmo som e falando das mesmas coisas, só que agora para públicos também de fora da nossa bolha”.

O repertório da apresentação deve reunir músicas que representam essa nova fase, como Existência, (Des)Obedecer, Nada Pra Mim, A Lei do Retornoe faixas inéditas do álbum ATLAS.

Mesmo dividido com atrações de estilos completamente diferentes, Aguiar vê essa diversidade como uma oportunidade. O dia do festival, encabeçado por Calvin Harris e Black Eyed Peas, é predominantemente voltado ao pop, enquanto o Supernova reúne bandas de hardcore e punk rock.

“Esse contraste torna tudo ainda mais interessante. No fim, quem ganha é o público, que tem a chance de conhecer sons diferentes e sair dali com uma experiência muito mais rica. Nunca tivemos problema em estar em lugares onde, teoricamente, o hardcore seria o patinho feio. Se alguém sair do festival curioso para conhecer o Bayside Kings ou o hardcore de forma geral, isso já é uma vitória enorme”.

Se para muitos artistas o Rock in Rio representa o destino final, para o Bayside Kings ele é apenas mais um capítulo.

A banda pretende continuar fazendo exatamente o que fez durante toda a carreira: lançar músicas, viajar pelo Brasil, tocar em festivais, mas também em pequenas casas para cem pessoas.

“O Rock in Rio não é um ponto de chegada. É mais um passo da caminhada”.

A filosofia acompanha o grupo desde o início.

“Existe uma frase que aprendi dentro da comunidade hardcore punk e que carrego até hoje: ‘Pense globalmente, aja localmente’”.

Talvez seja justamente essa ideia que explique por que uma banda nascida em Santos conseguiu transformar o cenário da Baixada Santista em plataforma para alcançar o maior festival do país.

Fonte: https://santaportal.com.br/

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