Por quase toda a vida, Ulisses Nicolai fez do violino a sua voz. No palco, não precisava de palavras: bastavam o arco, as cordas e a música. Primeiro violino e spalla da Orquestra Sinfônica Municipal de Santos (OSMS), o músico faleceu na última segunda-feira (10), aos 59 anos, deixando uma trajetória marcada pelo talento e pela dedicação à arte.
Carinhosamente chamado de ‘Bamba’, Ulisses não gostava muito de falar sobre o próprio talento. Preferia as luzes dos palcos e das salas de concerto aos flashes das câmeras. Era tocando que se sentia mais à vontade para expressar aquilo que talvez as palavras não alcançassem.
Nascido em São Paulo, em 1966, cresceu em uma família na qual a música fazia parte do cotidiano. Ainda criança, começou a trilhar o caminho que faria do violino seu companheiro inseparável. O vínculo familiar com a música era tão forte que os oito irmãos estudaram instrumentos musicais. Quatro deles, entre os quais Ulisses, seguiram carreira profissional.
Aos 11 anos, iniciou os estudos de violino no Sesc, no projeto Alberto Jaffé. Aos 15, ingressou na Orquestra Jovem Municipal de São Paulo. Em 1986, já ocupava a posição de spalla na Orquestra de Câmara da Faculdade Carlos Gomes. Depois, passou por diversas orquestras do Estado, construindo uma trajetória que ele próprio gostava de contar com bom humor.
Foram tantos grupos e palcos que, certa vez, brincou que seria mais fácil dizer em quais orquestras não havia tocado do que enumerar todas aquelas que fizeram parte de sua história. Ulisses também foi professor de música e integrou o Quarteto de Cordas Martins Fontes.
Em 1995, Ulisses chegou à Orquestra Sinfônica Municipal de Santos. Logo conquistou o posto de spalla, posição que ocupou por mais de três décadas e que exige muito mais do que excelência técnica. Ao lado do maestro, cabe ao spalla liderar os instrumentistas e contribuir para transformar a concepção artística de cada concerto em música.
A despedida de Ulisses representa uma perda irreparável para os colegas da Sinfônica. Para o maestro Luís Gustavo Petri, parte um amigo, parceiro e companheiro de mais de três décadas na OSMS. Os dois se conheceram ainda nos anos 1980, na Orquestra Jovem Municipal de São Paulo.
Quando Petri recebeu o convite para fundar a Sinfônica Municipal de Santos, fez questão de convencer Ulisses a prestar o concurso para integrar a nova orquestra. Inicialmente resistente, o violinista aceitou o desafio com uma condição: ficaria apenas seis meses. O período, porém, transformou-se em 31 anos de dedicação à música e à Cidade.
“Eu via nele um espírito de liderança. Além de tocar muito bem o violino, tinha a autoridade que todo spalla precisa ter”, recorda Petri.
Para o maestro, a amizade e a parceria entre os dois também ajudaram a construir a história da Sinfônica. “Essa parceria foi um dos pilares da construção desse patrimônio que hoje é a Sinfônica Municipal de Santos. Ulisses já está fazendo muita falta. Vai ser bem difícil olhar para aquele naipe e não vê-lo sentado ali”.
O secretário de Cultura de Santos, Rafael Leal, também recordou o jeito discreto do músico e seu talento. “Ulisses não era muito de falar sobre sua arte. Preferia tocar. E, por décadas, Santos teve o privilégio de ouvi-lo”.
Ulisses Nicolai era divorciado e pai de um filho, Bruno Souza Nicolai.
Fonte: https://santaportal.com.br/