“Nosso artigo buscou responder se o risco genético para depressão apenas define um ponto de partida para o surgimento do transtorno ou se também molda a forma como os sintomas evoluem à medida que um jovem cresce”, explica pesquisador. Foto: Divulgação/Governo de São Paulo Um estudo abrangendo mais de 2 mil crianças e jovens nas cidades de São Paulo e Porto Alegre revelou que uma ferramenta de mapeamento genético pode ser eficaz na identificação de indivíduos com maior vulnerabilidade à depressão, além de sinalizar tendências de gravidade da doença desde a infância até o início da vida adulta.

Pesquisadores do Centro de Pesquisa e Inovação em Saúde Mental (CISM) descobriram que indivíduos com maior pontuação no escore genético tendem a apresentar um agravamento mais rápido dos sintomas ao longo dos anos. Além disso, aqueles já diagnosticados com transtorno depressivo maior (TDM) mostram maior suscetibilidade ao que os cientistas chamam de “autolesão não suicida”, que envolve danos intencionais ao próprio corpo, como cortes e queimaduras, sem a intenção de provocar a morte.

Publicados em julho na revista Biological Psychiatry, os resultados demonstram a utilidade desse marcador preditivo em uma população altamente miscigenada como a brasileira. Esse avanço é significativo, já que a maioria dos estudos sobre “risco poligênico” era centrada em indivíduos de ancestralidade europeia, limitando a precisão das ferramentas em outros contextos.

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“Nosso artigo buscou entender se o risco genético para a depressão é apenas um ponto de partida para o surgimento do transtorno ou se molda a evolução dos sintomas durante o crescimento dos jovens”, afirma o psiquiatra Marcelo Brañas, coautor do estudo com o pesquisador Lucas Ito, ambos da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). “Buscamos confirmar também se as ferramentas existentes são eficazes fora de populações de ascendência europeia, uma vez que as populações brasileiras miscigenadas estão amplamente ausentes na genética psiquiátrica.”

Para chegar a essas conclusões, o grupo avaliou 2.163 jovens, com idades entre 6 e 23 anos, acompanhados em três fases distintas do desenvolvimento. Os participantes fazem parte da Coorte Brasileira de Alto Risco para Condições Mentais (BHRC), um extenso projeto que investiga a origem genética e ambiental dos transtornos psiquiátricos há mais de 15 anos. No âmbito do CISM, a iniciativa é denominada “Conexão Mentes do Futuro”.

Os dados revelam que a genética desempenha um papel ativo na evolução clínica, embora os autores ressaltem que tais informações precisam ser integradas a dados clínicos e ambientais para permitir predições individuais no futuro. “Neste grupo de jovens, o risco poligênico para transtorno depressivo maior mostrou uma especificidade diagnóstica relativa e indicou um percurso de evolução mais grave da depressão”, destaca Ito. Ele acrescenta que a correlação entre genética e autolesão em indivíduos já diagnosticados ajuda a compreender os mecanismos por trás dos comportamentos mais severos da doença. “Isso reafirma a importância de estudar populações de diferentes ancestralidades”, conclui.

Esses achados abrem oportunidades para futuras estratégias de monitoramento e intervenções psiquiátricas precoces.

A pesquisa foi coordenada pelo professor Euripedes Constantino Miguel, com coorientação de Pedro Mario Pan, pesquisador da BHRC e da Unifesp, e mentoria de Lois Choi-Kain, da Harvard University (Estados Unidos).

O CISM é um Centro de Pesquisa Aplicada (CPA) apoiado pela Fapesp e situado na Universidade de São Paulo (USP), contando com uma equipe de pesquisadores da Unifesp, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), do Centro Universitário de Jaguariúna (UniFAJ) e do Centro Universitário Max Planck (UniMAX – Indaiatuba).

Fonte: https://www.agenciasp.sp.gov.br/estudo-jovens-mostra-antecipar-depressao/

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