Alimentos ultraprocessados representaram, em média, 30% da energia consumida pelos pais e 26% da consumida pelas mães participantes do estudo – Foto: Magnific Um estudo realizado pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP sugere que o consumo de alimentos ultraprocessados por pais pode estar associado às características dos bebês ao nascer. A pesquisa indica que os cuidados com a dieta masculina devem começar pelo menos três meses antes da concepção, período crucial para a formação e maturação dos espermatozoides. A relação entre o maior consumo de ultraprocessados e medidas corporais dos bebês foi identificada no estudo, conforme explica a doutora Mariana Rinaldi Carvalho, uma das responsáveis pela pesquisa.

“Identificamos uma associação positiva entre a dieta consumida pelos pais, especialmente os ultraprocessados, e características como peso ao nascer e medidas de adiposidade nos recém-nascidos. O aumento do consumo paterno desses alimentos está correlacionado com maiores medidas de crescimento. Biologicamente, é indicado que os homens adotem uma alimentação saudável pelo menos três meses antes da concepção, uma vez que isso pode impactar a qualidade e a produção dos espermatozoides. Mudanças nos hábitos alimentares e de vida refletem diretamente na saúde dos espermatozoides e podem influenciar processos epigenéticos essenciais para o desenvolvimento embrionário inicial”, destaca Mariana.

No entanto, a pesquisa não afirma que o consumo de ultraprocessados causou as alterações observadas; ela aponta apenas associações. Para confirmá-las, novos estudos são necessários para determinar se realmente existe uma relação de causa e efeito.

“Esses achados levantam uma hipótese significativa sobre o impacto da alimentação paterna nas características do desenvolvimento fetal e neonatal. É crucial realizar investigações mais abrangentes sobre a dieta dos homens antes da concepção e acompanhar esses indivíduos ao longo do tempo para compreender melhor essa relação e estabelecer, se aplicável, uma causalidade entre o consumo de ultraprocessados e as medidas antropométricas dos recém-nascidos”, acrescenta.

Ainda que a pesquisa não tenha explorado diretamente os mecanismos subjacentes a essa possível relação, existem hipóteses biológicas que podem esclarecer o fenômeno. Uma das principais hipóteses envolve mecanismos epigenéticos que podem modificar a regulação de certos genes sem alterar a sequência do DNA. No caso dos pais, fatores relacionados ao estilo de vida e à alimentação podem influenciar características dos espermatozoides, potencialmente afetando o desenvolvimento embrionário.

Outro aspecto considerado pela doutora Mariana é o estresse oxidativo e processos inflamatórios. Dietas com alta quantidade de ultraprocessados podem contribuir para um ambiente metabólico desfavorável. “Os ultraprocessados são ricos em açúcares e gorduras, com aditivos que podem comprometer a qualidade e a motilidade dos espermatozoides, aumentando a produção de espécies reativas de oxigênio, o que prejudica a saúde do espermatozoide”, explica.

Além dessas razões, evidências sugerem que fatores ambientais e estilos de vida estão relacionados à qualidade dos espermatozoides e marcas epigenéticas presentes nessas células. Para Mariana, essas modificações podem iluminar como a exposição paterna ao ambiente pré-concepção pode afetar o desenvolvimento infantil. “Temos uma hipótese biológica plausível, respaldada por pesquisas, que afirma que a alimentação e outros fatores ambientais alteram as características dos espermatozoides, influenciando, por sua vez, o desenvolvimento do bebê”, conclui.

A pesquisa também analisou o papel dos alimentos ultraprocessados nas dietas dos pais. Para os homens, esses produtos constituíram, em média, 30% da energia consumida, enquanto para as mulheres, o percentual foi de 26%. As principais fontes de ultraprocessados na dieta paterna incluíram salsicha, bacon, bebidas açucaradas e bolachas. Entre as mães, os itens mais comuns foram hambúrgueres, refeições prontas, salgadinhos industrializados e batatas fritas. A análise comparativa revelou que enquanto um maior consumo de ultraprocessados por parte dos pais demonstrou uma associação direta com especificações de crescimento ao nascer, o consumo materno desses alimentos mostrou uma relação inversa.

“Essa relação inversa sugere que existem vias diferentes nas quais a dieta dos pais influencia o crescimento do filho. Embora uma alimentação não saudável da mãe impacte diretamente o crescimento fetal por meio de mecanismos uterinos, a dieta do pai pode influenciar através de vias epigenéticas, afetando o metabolismo e o crescimento do bebê ainda no útero. Isso implica uma interação complexa entre os estilos de vida maternos e paternos no crescimento fetal. Contudo, é imprescindível que mais estudos sejam feitos para elucidar essas relações e compreender os mecanismos envolvidos”, conclui.

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